Quando nasci, um anjo poeta
desses que vivem nas entrelinhas
disse: Vai, Aniela! ser leitora da vida.
E eu fui...
Cresci brincando de comer palavras na sopa de letrinhas, dormi embalada pelo Lobo Mau na voz nada malvada do meu pai e minha grande princesa foi minha mãe quando me presenteou, no Natal dos meus 7 anos, com uma coleção intitulada Fábulas Encantadas que mesmo, quase trinta anos depois, ainda retiro da estante só pelo gosto de folheá-la .Apesar disso, não fiz pré-escola e fui alfabetizada formalmente somente na escola. Verdade seja dita, minha professora não tinha muita expectativa sobre meu aprendizado, já que eu era a única criança da sala 'atrasada' na leitura e escrita.
Ah...mas meus nobres pais não levaram a ameaça adiante: sabiam eles que o maior legado que poderiam deixar para mim já estava enraizado na minha alma há tempos: o amor pelos livros.
Sábio Rubem Alves, como pode me definir tão bem em suas palavras? “Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei”.
Fui primeiramente Capitu, então pobre Macabéa e amor incondicional pela Clarice, como sofri sendo Fabiano! Sou tão Casmurro, às vezes, mas nunca consegui ser Aristarco. Minha única experiência negativa com os livros.
Está é a minha sina: tenho fome, gula insaciável por leitura. Tão viciada quanto a Nina Horta – talvez, até mais. Morando a 250 km da capital, faltei no trabalho e viajei sete horas de ônibus só para ir à Bienal do Livro deste ano. Voltei com uma mala cheia, um cartão de crédito estourado e a certeza de que visitei o paraíso.
Vida sem literatura é prisão, sobrevivência fadada, miséria de sentidos. Ler é minha essência, meu espírito pleno. Ensinar leitura, a minha missão.
Não 'poetejo' também, Anna Verônica Mautner; algumas vezes, jogo uma prosa aqui ou outra lá, um conto para um sorriso, um haicai para matar um dia infeliz, mas planto letras muito bem! Chego nos alunos como quem não quer nada, sussurro um Machado, jogo um Quintana para o alto, deixo em cima da mesa um Lobato assim, por acaso ... espero... rego uma Cecília com cuidado, e por fim, o golpe final: olho nos olhos e lhes apresento Drummond: 'Chega mais perto e contempla as palavras...cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: TROUXESTE A CHAVE?'
Aniela Dal Rovere
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