As notícias podem servir de inspiração para outros gêneros:
Poema Tirado de uma
Notícia de Jornal
João Gostoso era carregador de feira
livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Manuel Bandeira
Noticia de Jornal
Chico Buarque
Tentou contra a existência
Num
humilde barracão
Joana de tal, por causa de um tal João
Depois
de medicada
Retirou-se pro seu lar
Aí a notícia carece de
exatidão
O
lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais
uma mulata triste que errou
Errou
na dose
Errou no amor
Joana errou de João
Ninguém
notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente
não sai no jornal
NOTÍCIA
DE JORNAL
Fernando
Sabino
Leio
no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor
branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem
socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada
durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.
Morreu
de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância
do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram
sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um
homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem)
afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de
Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem
morreu de fome.
O
corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto
Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu
de fome.
Um
homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um
homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um
anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho,
uma coisa - não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino
de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos
passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo,
desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum.
Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado,
perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
Não
é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha,
por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso?
Deixa o homem morrer de fome.
E
o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente
vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos
comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às
autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o
corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos
outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de
fome.
E
ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena
rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado
da Guanabara, um homem morreu de fome.
Uma sugestão multimidia para ser trabalhada com os alunos:
Este video do grupo de teatro Os melhores do mundo traz diversos esquetes 'emprestados' das notícias populares ( inclusive o vocabulário).
Num humilde barracão
Joana de tal, por causa de um tal João
Retirou-se pro seu lar
Aí a notícia carece de exatidão
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou
Errou no amor
Joana errou de João
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal
Uma sugestão multimidia para ser trabalhada com os alunos:

Nenhum comentário:
Postar um comentário